Quando uma jornalista publica uma reportagem crítica, cobre um político ou simplesmente ocupa um espaço que historicamente pertenceu a homens, ela raramente enfrenta apenas a discordância de leitores ou a pressão editorial. Cada vez mais, enfrenta campanhas coordenadas de ataques, ameaças veladas e uma espécie de violência que transcende a crítica legítima: a misoginia instrumentalizada como ferramenta de silenciamento político. Este artigo analisa como o ódio de gênero deixou de ser um fenômeno marginal e se consolidou como estratégia deliberada contra mulheres que exercem o jornalismo no Brasil e no mundo, quais são as consequências concretas dessa prática e por que a sociedade precisa nomear esse problema com precisão para enfrentá-lo.
Da Crítica ao Ataque: Uma Fronteira Cada Vez Mais Tênue
Existe uma diferença fundamental entre criticar o trabalho de uma jornalista e atacá-la por ser mulher. A primeira é legítima, democrática e até necessária para a saúde do debate público. A segunda é uma forma de violência que tem como alvo não o conteúdo produzido, mas a própria existência da profissional naquele espaço.
O problema é que essa fronteira tem sido sistematicamente apagada. Ataques misóginos surgem frequentemente mascarados de “crítica jornalística”, de “questionamento editorial” ou de simples “opinião”. Quando o conteúdo de um ataque concentra-se na aparência física, na vida afetiva, na suposta incompetência emocional ou na ilegitimidade da presença feminina em determinado cargo, não se trata de crítica: trata-se de misoginia organizada.
Estudos da UNESCO, em parceria com o International Center for Journalists, revelam que 73% das mulheres jornalistas entrevistadas sofreram violência online, com frequência impulsionada por campanhas coordenadas. Esse dado não é uma estatística abstrata. Corresponde a redações esvaziadas de vozes femininas, a coberturas abandonadas por exaustão emocional, a profissionais que optaram pela autocensura para evitar ser o próximo alvo.
Misoginia Política: Quando o Ódio Tem Estratégia
O que diferencia a misoginia contemporânea das agressões isoladas do passado é a sua organização. No ambiente digital, ataques a jornalistas mulheres frequentemente não são espontâneos: são mobilizados, amplificados e direcionados. Uma publicação crítica a um político, a cobertura de um escândalo, o simples fato de discordar publicamente de uma figura de poder pode desencadear uma avalanche de mensagens hostis em questão de horas.
Esse padrão revela que a misoginia tem sido utilizada instrumentalmente no campo político. Não é uma reação emocional descontrolada, mas uma estratégia de dissuasão. O objetivo não é apenas atacar aquela jornalista específica: é enviar uma mensagem coletiva de que determinados temas, determinadas coberturas e determinados posicionamentos terão um preço alto para qualquer mulher que ouse praticá-los.
O resultado é uma forma sofisticada de censura. Quando uma profissional interrompe sua cobertura, abandona as redes sociais ou muda o tom de seus textos para evitar novos ataques, a estratégia misógina funcionou sem precisar de qualquer intervenção jurídica ou institucional. A autocensura gerada pelo medo é tão eficaz quanto a censura explícita, e muito menos visível.
O Silêncio que Empobrece o Jornalismo
Retirar mulheres do jornalismo, ou forçá-las a se autocensurar, não é um problema apenas delas. É um problema de toda a sociedade que depende de uma imprensa plural e diversa para se informar. Quando determinadas vozes são sistematicamente silenciadas, certas perspectivas somem das coberturas, certas pautas deixam de ser aprofundadas e certas fontes deixam de ser ouvidas.
A misoginia como arma política, portanto, não agride apenas a jornalista: agride o leitor que não terá acesso ao trabalho que ela deixou de fazer. A pluralidade da imprensa é inseparável da segurança de quem a exerce. Uma redação onde mulheres são constantemente intimidadas a abandonar determinadas coberturas não é livre, independentemente dos princípios editoriais que proclame.
Nomear para Enfrentar
O Brasil avança, ainda que timidamente, na discussão jurídica sobre o tema. O debate em torno da criminalização da misoginia aponta para um reconhecimento crescente de que a violência de gênero não ocorre apenas em espaços físicos. O ambiente digital é um prolongamento da vida pública e social, e o discurso misógino que opera nele causa danos reais, mensuráveis e duradouros.
A Safernet registrou crescimento de 220% nas denúncias de crimes online de misoginia entre 2024 e 2025. Um levantamento da Fundação Getúlio Vargas identificou crescimento de quase 600 vezes no envio de conteúdo misógino em redes de ódio monitoradas entre 2019 e 2025. Esses números exigem respostas concretas, não apenas declarações de princípio.
Nomear a misoginia como estratégia política é o primeiro passo para desativá-la. Reconhecer que ataques a jornalistas mulheres não são “excessos de leitores raivosos”, mas campanhas organizadas com objetivos definidos, é condição para que redações, plataformas e o poder público possam agir com a seriedade que o problema exige. A democracia se constrói também na proteção de quem informa. E proteger mulheres jornalistas é proteger o direito de todos à informação.
Autor: Diego Velázquez