Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista e especialista em saúde mental e relações familiares, observa uma situação bastante comum que representa muitas histórias reais sem descrever nenhuma mulher específica: ela percebe, aos poucos, que os dias em casa seguem um padrão. Primeiro vem a tensão crescente, depois um episódio de violência e, por fim, um período de calma e arrependimento que faz parecer que tudo vai mudar.
Esse padrão, conhecido como ciclo da violência, se repete de forma tão consistente em diferentes histórias que reconhecê-lo é uma das ferramentas mais úteis para quem tenta entender, de fora ou de dentro, o que está acontecendo e por que é tão difícil sair.
Uma história recorrente: a fase de tensão
Nessa primeira fase, pequenas coisas começam a irritar o parceiro com mais frequência: um comentário, um atraso, uma decisão tomada sem consultá-lo. A mulher começa a andar em ovos, tentando prever o que pode desencadear uma reação maior, e muitas vezes acredita que, se fizer tudo certo, consegue evitar o pior.
Essa fase pode durar dias ou meses, e o desgaste emocional de viver em estado de alerta constante já é, por si só, uma forma de violência, mesmo antes de qualquer agressão explícita acontecer. Muita gente de fora só reconhece o problema quando a explosão finalmente vem, sem perceber o quanto essa tensão prévia já vinha corroendo a mulher por dentro.
A explosão e a “lua de mel” que vem depois
A tensão acumulada eventualmente se transforma num episódio de violência, seja verbal, psicológica ou física. Logo depois, costuma vir uma fase de arrependimento, carinho intenso e promessas de mudança, conhecida como lua de mel.
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que essa fase de reconciliação não é fingida na maioria dos casos: o arrependimento costuma ser genuíno naquele momento, o que torna ainda mais difícil para a mulher acreditar que o ciclo vai se repetir, já que a pessoa diante dela naquele instante parece, de fato, arrependida e disposta a mudar.
Por que o ciclo se repete várias vezes antes de romper de vez?
Cada vez que a lua de mel acontece, ela reforça a esperança de que a fase de tensão e explosão foi a última. Esse padrão intermitente, alternando dor e afeto intenso, cria um vínculo particularmente difícil de romper, mesmo quando a mulher já reconhece intelectualmente que a situação é grave.
Sair na primeira, segunda ou até terceira tentativa não costuma ser a regra, e isso não é sinal de fraqueza. Taiza Tosatt Eleoterio aponta que esse ciclo tende a se repetir várias vezes, cada uma reduzindo um pouco mais a confiança da mulher na própria percepção, antes que a ruptura definitiva aconteça.
Como romper o ciclo de fato?
Taiza Tosatt Eleoterio pondera que romper o ciclo raramente depende só de força de vontade: costuma exigir rede de apoio concreta, informação sobre os próprios direitos e, muitas vezes, acompanhamento psicológico que ajude a reconstruir a confiança na própria percepção da realidade.
Reconhecer o padrão, nomeá-lo com clareza, já é um passo importante, porque tira o ciclo do território da confusão emocional e o coloca no campo do que pode ser compreendido e, portanto, enfrentado com mais clareza e menos culpa.
Entender o ciclo não é julgar quem ainda está nele
Nenhuma mulher decide, de forma consciente e deliberada, permanecer presa a esse padrão. O ciclo funciona justamente porque confunde, alterna esperança e medo, e torna cada saída mais difícil do que pareceria de fora. Reconhecer essa mecânica, como pontua a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, é uma forma de trocar julgamento por compreensão, e compreensão costuma abrir mais portas de ajuda do que qualquer cobrança jamais conseguiria.