Empresa prevê mais de R$ 2 bilhões para tecnologia e inovação, incluindo agentes de inteligência artificial e novas ferramentas para o comércio digital.
O iFood anunciou nesta quarta-feira (16) um plano de investimentos de R$ 24 bilhões no Brasil até março de 2027, colocando tecnologia e inteligência artificial no centro de uma nova etapa de expansão da plataforma. O valor representa aumento de 41% em relação ao ciclo anterior e será distribuído entre restaurantes, novas categorias de produtos, serviços financeiros e desenvolvimento tecnológico. (InfoMoney)
Para quem usa aplicativos no dia a dia, a notícia pode parecer apenas uma decisão empresarial. Na prática, porém, a dimensão do investimento ajuda a explicar por que aplicativos de entrega estão deixando de funcionar apenas como ferramentas para pedir comida e passando a reunir compras, pagamentos, recomendações personalizadas e outros serviços. A principal dúvida para o consumidor é justamente esta: o que a expansão da inteligência artificial pode mudar na experiência de quem usa essas plataformas?
Por que o iFood está colocando bilhões em tecnologia e inteligência artificial
Do total anunciado, mais de R$ 2 bilhões serão destinados à tecnologia e inovação, segundo informações divulgadas pela empresa. Entre os projetos está a evolução de agentes de inteligência artificial e do Large Commerce Model (LCM), um modelo generativo desenvolvido pelo iFood em parceria com a Prosus para aplicações relacionadas ao comércio e ao delivery. A companhia afirma que a tecnologia utiliza informações como buscas, cliques, compras, cancelamentos e avaliações para interpretar melhor a intenção do consumidor e produzir recomendações mais precisas. (InfoMoney)
Essa estratégia mostra uma mudança importante no funcionamento dos grandes aplicativos: em vez de simplesmente apresentar uma lista de restaurantes ou produtos, a plataforma tenta antecipar o que o usuário procura. Na prática, isso pode significar recomendações mais personalizadas, sugestões de produtos complementares e processos de compra mais automatizados. Para o usuário, a vantagem potencial está na conveniência, mas a expansão desse tipo de inteligência também aumenta a importância de entender como os dados pessoais e os hábitos de consumo são utilizados. Quanto mais um sistema conhece preferências, horários e padrões de compra, maior é a necessidade de transparência sobre o tratamento dessas informações.
O investimento também ocorre em um momento de diversificação do negócio. O iFood pretende ampliar sua presença em segmentos como supermercados, farmácias, pet shops e lojas, enquanto fortalece o iFood Pago, sua operação financeira voltada principalmente a negócios parceiros. Segundo a Reuters, a empresa informou que mais de 2 bilhões de reais do plano serão direcionados especificamente à tecnologia e inovação, enquanto o investimento total previsto para o ciclo chega a R$ 24 bilhões. (BOL)
Como a inteligência artificial pode mudar a experiência de quem usa aplicativos
Uma das mudanças mais perceptíveis para o consumidor tende a ocorrer nas recomendações. Sistemas capazes de analisar grandes volumes de informações podem identificar padrões que dificilmente seriam percebidos manualmente, como horários recorrentes de compra, preferências alimentares ou categorias de produtos que costumam aparecer juntas. Isso permite que o aplicativo apresente ofertas e sugestões mais relacionadas ao comportamento individual, reduzindo a necessidade de procurar item por item.
A inteligência artificial também pode ser aplicada nos bastidores, em áreas como previsão de demanda, logística e atendimento. Um sistema pode ajudar a estimar quais regiões terão maior volume de pedidos em determinados horários, contribuindo para organizar operações e reduzir desperdícios ou atrasos. Para restaurantes e lojas, ferramentas desse tipo podem auxiliar na gestão de estoque, definição de ofertas e relacionamento com clientes. Para o consumidor, o efeito aparece indiretamente em uma experiência que pode se tornar mais rápida e personalizada.
Outro ponto importante é a expansão para além da comida. A empresa informou que espera chegar ao fim de 2026 com aproximadamente 40% de suas receitas e resultados vindos de negócios que não são o delivery tradicional de restaurantes. No ciclo anterior, segundo a companhia, os negócios de mercados cresceram 60%, os de farmácias 70% e os de pet shops mais de 100%. (BOL)
Isso significa que o aplicativo pode assumir cada vez mais o papel de uma plataforma de comércio digital cotidiano. Em vez de abrir um serviço específico para cada necessidade, o usuário pode encontrar alimentos, medicamentos, produtos para animais, itens de mercado e serviços financeiros dentro de um mesmo ecossistema. Essa transformação ajuda a explicar por que a inteligência artificial passou a ser considerada uma peça central: quanto maior a variedade de produtos e serviços, maior também a necessidade de mecanismos capazes de organizar a experiência de cada pessoa.
O que muda para consumidores, restaurantes e profissionais de tecnologia
Para os restaurantes e pequenos negócios, a expansão tecnológica pode representar novas ferramentas para alcançar clientes e administrar operações. O iFood afirma que mais de 70% de sua base de restaurantes é formada por pequenos e médios negócios, grupo que também está entre os públicos atendidos pelo iFood Pago. A combinação entre marketplace, dados, crédito e ferramentas digitais pode alterar a forma como esses estabelecimentos administram vendas e relacionamento com consumidores. (InfoMoney)
Para profissionais de tecnologia, o movimento também é relevante porque mostra onde as empresas digitais estão concentrando esforços. Inteligência artificial generativa, agentes autônomos, modelos especializados, análise de dados, infraestrutura e segurança passam a fazer parte de produtos usados por milhões de pessoas. A tendência cria demanda por profissionais capazes não apenas de desenvolver modelos, mas também de integrá-los a sistemas existentes, monitorar resultados, proteger dados e avaliar riscos.
Já para o consumidor, é importante observar que personalização não significa necessariamente que toda recomendação será adequada ou imparcial. Sistemas automatizados dependem dos dados disponíveis e dos critérios definidos pelas empresas, podendo apresentar determinadas opções em função de objetivos comerciais. Por isso, comparar preços, verificar avaliações e conferir as condições da compra continua sendo importante mesmo quando a tecnologia promete facilitar a decisão.
O anúncio do iFood, portanto, vai além de um número bilionário. Ele sinaliza uma disputa cada vez mais tecnológica pelo cotidiano digital brasileiro, na qual aplicativos procuram combinar comércio, logística, pagamentos e inteligência artificial em uma única experiência. Com R$ 24 bilhões previstos para o novo ciclo e mais de R$ 2 bilhões destinados à tecnologia e inovação, o movimento deve ser acompanhado não apenas por quem trabalha no setor, mas também por consumidores, comerciantes e profissionais interessados no futuro da IA aplicada. (InfoMoney)
Fontes: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) · Reuters/InfoMoney — investimento de R$ 24 bilhões do iFood · Reuters — anúncio do investimento e plano de tecnologia · Diário do Grande ABC — detalhes do plano tecnológico e IA